25 de março de 2001

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Doce Mineira

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Ana Carolina conquista o País com seu jeito simples e voz potente
É praticamente impossível zapear as rádios e não ouvir o vozeirão de Ana Carolina entoando os conhecidos versos de Quem de nós dois, tema romântico da novela Um anjo caiu do céu. Esse carro-chefe, versão da canção italiana La mia storia tra le dita, de Gianluca Grignani, certamente ajudou Ana Rita Joana Iracema e Carolina, segundo disco da cantora, a chegar às lojas com 100 mil cópias vendidas. Há duas semanas, o CD é o segundo mais vendido no Rio e em São Paulo. Um sucesso rápido, mas não novo. Dois anos atrás, seu primeiro trabalho vendeu 160 mil cópias, puxado por Garganta, que também integrava a trilha de uma novela global, Andando nas nuvens. Na época, a desconhecida mineira de voz potente era confundida com Cássia Eller ou Zélia Duncan. “Hoje acho que isso não acontece mais”, diz, ciosa da demarcação de seu espaço. É nesse clima autoral que Ana Carolina bota o pé na estrada em turnê nacional que começou no Rio de Janeiro (17 a 20) e segue para Belo Horizonte (23), São Paulo (25 e 26), Nordeste e interior paulista.
Botar o pé é apenas maneira de falar. A cantora está com a perna esquerda engessada, fruto de um acidente de carro no início do mês, e deverá ficar imobilizada ainda por um bom tempo. Pode cantar, mas sentada no palco. Para quem é vaidosa assumida, difícil seria encarar o público com parte do couro cabeludo raspado devido ao corte, acima da orelha, que levou 30 pontos. Filha de mãe cabeleireira, Ana Carolina usou o know howde quem cresceu dentro de um salão de beleza para vencer o obstáculo. Redistribuiu a vasta cabeleira artificialmente ruiva e desgrenhou ainda mais os cachos naturais. Não é a primeira vez que Ana Carolina enfrenta a mesmíssima situação. “Levei uma enxadada na cabeça quando era menina”, relembra, sem saudade do primo que assina a cicatriz.
Montanhas – Nascida em Juiz de Fora há 26 anos, a cantora se mudou para o Rio quando decidiu investir mais na carreira. Escolheu o bairro Recreio dos Bandeirantes, quase uma roça, bem longe do frenesi da cidade grande. “Lá tem umas montanhas, umas árvores que me lembram muito o lugar onde eu morava em Juiz de Fora”, justifica. Ana Carolina assume sua relação de amor eterno com Minas Gerais. “Gosto da comida mineira, das pessoas, da geografia. Nas férias, vou para Juiz de Fora, Tiradentes, São João del Rey.” Estas cidades, e outras vizinhas, ela conhece bem e de longa data. Ana Carolina iniciou a trajetória de shows em bares ainda adolescente. Por muito tempo, apenas tocou violão. “Gosto mais de tocar que de cantar.”
A entrada no circuito comercial aconteceu por acaso. Uma amiga tomou a iniciativa de marcar um show para ela no restaurante Mistura Fina, na Lagoa, bairro chique da zona sul carioca. “A Luciana de Moraes, filha do Vinícius, apareceu por lá. No fim, perguntou se eu tinha algum CD. Eu tinha um doméstico e o dei a ela. Quinze dias depois me ligaram da gravadora BMG e fui contratada.” Mineiramente, Ana Carolina dissimula o orgulho ao falar da rapidez do sucesso. “Fiquei feliz, claro. Às vezes, fico surpresa por estar na mesma prateleira de alguns ídolos, como Chico Buarque, Adriana Calcanhotto, Maria Bethânia. Mas entendo que estou no processo de vender discos, fazer shows, seguir a carreira que escolhi.”
Quase todas as músicas do novo CD levam sua assinatura em letras e arranjos. EmDadivosa, ela conta com a parceria de Adriana Calcanhotto e, em Violão e voz, divide o microfone com Alcione. No clima de clube da luluzinha, a canção-título faz ainda referência a várias mulheres criadas por Chico Buarque. E, nos shows, Ana Carolina pretende ler trechos de escritoras e poetas como Elisa Lucinda e Ana Cristina César. Mas ela esclarece que todas estas coincidências não devem ser vistas como uma homenagem ao universo feminino. “Acho que a mulher tem de se enfeitar, sair do fogão e ir para a rua brincar, trabalhar, se divertir, sei lá. Mas não carrego bandeiras.” Tanto é assim que, para enfeitar o cenário do espetáculo, ela escolheu fotos de três homens que influenciaram muito sua vida: Freud, Jackson do Pandeiro e seu tio Wilson.
Este último é descrito pela cantora como um ícone, o elemento agregador da família e – talvez Freud explique assim – um substituto do pai, que morreu quando ela tinha apenas dois meses de idade. Por ser do tipo “muito família”, Ana Carolina diz que pretende ter filhos, “mas não agora!” No momento, se considera renascendo. “Se eu tivesse de escolher um tema para escrever hoje, seria a felicidade de estar viva. Depois do acidente, passei a dar muito valor a coisas simples como andar, respirar, contemplar a natureza.” Ou, quem sabe, comer feijão-tropeiro com torresmo, de preferência em Minas Gerais. 
Fonte: Eliane Lobato- IstoÉ

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“Eu respeito muito a música e ela me dá isso de volta...”- Ana Carolina